Quando me senti distante o suficiente e em segurança, limpei o suor da testa e tentei organizar as idéias. Havia o bar, é claro, mas estranhamente essa não me parecia uma boa alternativa. Havia também o puteirinho decadente, a Lígia que eu sequer toquei. Precisava voltar lá pra acertar as contas, deixar bem claro pra menina que viado era o pai dela, mostrar pro traveco-leão-de-chácara com quantos paus se faz uma bela foda.
Lá no fundo da minha cabeça, porém, eu sabia que o que me chamava a atenção naquele puteiro era a estreita relação de Lígia com Lívia, a Óieis. E também a estranha costura que Bruesch impusera a nós três: de uma hora pra outra um só livro juntou três vidas diferentes no mesmo saco — tudo isso sem um sentido claramente definido, uma direção.
O Aborto Celeste colocara no mesmo plano um velho bêbado, uma bibliotecária analfabeta e uma puta esclarecida. Seria demasiada ingenuidade da minha parte supor que tudo isso não passava de mera coincidência.
A biblioteca, portanto. Coloquei os meus pés no caminho e fui, tentando esvaziar a cabeça de pensamentos mais graves. Ao contrário do que sentira há pouco no quarto, porém, meu coração agora estava tranquilo — e meu pinto latejava com vigor entusiasmado a cada vez que eu me lembrava da bibliotecária. Da Óieis. Da Lívia.
Caso não encontrasse o livro poderia, quem sabe, convidá-la prum conhaque, uma cerveja. Não não não, uma mulher daquelas não se convida prum conhaque. Um chope, talvez, com uma porção de torresmo estalando de sequinha. Toda mulher gosta de ser tratada como princesa, mesmo que seja burrinha. (Tá certo: não se trata princesa com chope e torresmo, mas diante das minhas atuais condições, isso é um luxo que eu não permito nem a mim mesmo!)
Cheguei à biblioteca com a clara sensação de que algo, fosse o que fosse, ia acontecer. Ou achava o Bruesch, ou pegava a Óieis. Ou as duas coisas, quem sabe.
Pode ter sido impressão, coisa da minha cabeça maluca, mas o que senti ao pôr os pés lá dentro foi um cheiro de morte, mofo, como se toda a biblioteca fosse apenas um grande e organizado cemitério — coisa que, afinal, não me parece tão absurda assim.
Um silêncio gelado soprava dos amplos corredores, as estantes rangendo um lamento incompreensível.
— Oi — ouvi a voz atrás de mim. A Óieis.
— Oi — respondi, um tanto constrangido. A simples visão daquela mulher me deixava em apuros.
— Veio atrás daquele livro, né? — ela perguntou. — Já te disse que não consta no sistema.
— Vim, quer dizer, não só do livro. Ou melhor...
Percebi que algo no rosto dela se iluminou. Nesse momento eu constatei o quanto ela era realmente bonita.
— Vai ter que procurar sozinho — ela falou, o sorriso brilhando.
— Já encontrei uma vez — falei. — Acho que hoje é o meu dia de sorte.
— Quem sabe...
Caminhei em direção às estantes sentindo que cada passo meu era acompanhado pelo seu olhar. Me senti perdido. Resolvi então unir o útil ao agradável:
— Você poderia, pelo menos, me acompanhar?
Não sei se havia algo engraçado no meu pedido, mas ela gargalhou alto. O Bruesch que se lasque, pensei. É hoje que eu vou me dar bem!
A Óieis, quer dizer, a Lívia se aproximou e perguntou:
— Quer começar por onde?
— Faz alguma diferença?
Ela lançou um olhar para o vazio.
— Não muita.
Entramos os dois naquele imenso labirinto de papel, os livros acompanhando em silêncio o nosso avanço.
***
— Conheci a tua irmã outro dia — falei, a voz forçando uma casualidade inexistente.
— A Liginha?
— É.
— Como ela tá?
— Boa. Quer dizer, tá bem. Vocês não se vêem, não?
— Estamos no corredor errado — ela desviou a conversa. — Aqui é só ficção estrangeira. O que queremos é filosofia, não é?
Eu parei de andar, os olhos grudados nos olhos dela. Havia algo estranho mas eu não conseguia ainda identificar. Ter mudado a direção da conversa sobre a irmã não me chamou muito a atenção: algumas pessoas não se suportam, se separam, mesmo que façam parte da mesma família. Famílias, aliás, são laboratórios de ódio. Falo por experiência própria.
— Queremos o Aborto Celeste — eu disse, objetivo. — Você sabe do que eu tô falando.
— Desconheço — ela respondeu de imediato, o rosto subitamente assumindo um ar grave.
— Não foi o que a Liginha me falou.
— Minha irmã é maluca. Às vezes ela brinca assim.
Não era uma brincadeira. Ela sabia, eu sabia. A Ligia sabia. Mas agora se tornava inegável que havia mais coisa por baixo desse angu.
— Aquela porta ali entre as estantes vai dar aonde? — eu perguntei.
Livia olhou para a porta, os olhos muito abertos. Parecia estar vendo um fantasma.
— O que foi? — perguntei.
— Essa porta nunca esteve aí — ela respondeu, um tom gelado na voz. — Nunca vi...
— Isso aqui é muito grande — falei. — Você pode não ter percebido.
— Conheço todos os cantos desta biblioteca — ela afirmou. — Impossível não ter percebido ainda.
Claro, era isso! O que havia de estranho era o seu modo de falar. Agora era normal, correto, nada daquilo de falar errado. Por quê? Maluca mesmo?
— Você está falando diferente hoje...
Ela, percebi, ficou vermelha; parecia uma criança apanhada em flagrante bem no meio de uma travessura.
— Depois a gente fala sobre isso.
— Vamos entrar então. Quem sabe o livro está aí dentro.
Quando girei a maçaneta, todas as luzes se apagaram. Senti uma pressão nas costas e dois braços me agarrando por trás com força. Livia havia acabado de me abraçar. Bem, pensei, lá vamos nós.